terça-feira, outubro 30, 2007

 

Zélia Gattai (VI)


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ANO 2000

Das festas nacionais ou comemorativas, a que Jorge mais gostava era a da passagem do ano. Não havia Natal, São João, Carnaval, Sete de Setembro ou Dois de Julho entre outras festas que o entusiasmassem tanto quanto a do Réveillon.

O Réveillon daquele ano de 2000 se aproximava e eu podia sentir melhoras no estado de ânimo de Jorge. O tratamento que fazia, (...), surtia efeito. Ele já não vivia de olhos fechados e, às vezes, até respondia a algumas questões.

Jorge melhorava, mas, mesmo assim, não íamos fazer nada em casa nem convidar os amigos de sempre, como era o hábito, para brindar com champanhe, à meia-noite, a passagem do ano. Os meninos tinham compromisso, passariam o Réveillon com seus tios e primos e os familiares de Graciliano Ramos, chegados de fora para festejar a virada do ano 2000, aqui em Salvador.

Brindamos a passagem do ano aqui em casa, com champanhe, às sete horas da noite durante o jantar com nossos filhos. Depois, sozinhos, diante da televisão, assistimos ao movimento das festas e ouvimos o foguetório ensurdecedor, bombas e rojões espocando por toda parte.

À meia-noite em ponto, de pé os dois, como jovens namorados, nos abraçamos e nos beijamos com muito amor.

Se essa virada de ano passáramos sós, em compensação, no dia 12, atendemos a um convite de Marise Ramos para almoçar na casa que ela alugara em Itapuã, onde reunira as famílias Ramos e Amado no Réveillon. Jorge estreava um novo ano animado, falante, a tal ponto que chegou a conversar por telefone com nossa amiga Mafalda, viúva de Erico Veríssimo, que vivia em Porto Alegre. Encantou-se com o sobrinho Maurício, filho de James, seu irmão. Não o via há vários anos e o reencontrava agora, casado, pai de família. Jorge parecia voltar à sua antiga forma, programando um almoço em nossa casa. "É um almoço para Maurício", declarou, abraçando o sobrinho.

O almoço foi feito, a família toda estava presente, mas, nesse dia, Jorge já não se encontrava tão eufórico. Sentíamos, eu e os meninos, que mais uma fase de depressão se aproximava a passos largos.

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ALMA NOVA

Eu ficara pessimista com os resultados de minhas experiências em busca de milagres. (...)

Jorge melhorava lentamente, passáramos mais um Réveillon tranqüilo, o de 2001, mas ele ainda não manifestara desejo de escrever. "E por que não tentar?", pensei um dia.

Coloquei um bloco de papel ao seu lado, dei-lhe uma caneta.

_ Escreva aqui, Jorge - disse-lhe, ao vê-lo bem disposto.

_ O quê? - perguntou-me, a voz fraca.

_ O que você quiser... Faça, por exemplo, uma dedicatória, escreva uma frase...

Debruçado sobre o papel ele escreveu rapidamente: "Uma frase, o que você quiser", e assinou. (...)

Sem perder os traços e o estilo de sua caligrafia, às vezes quase ilegível, ele parecia ter tomado gosto. Virou a página do bloco, e, sem que nada eu lhe dissesse, voltou a escrever: (...)

Guardo estes manuscritos e ainda outros, de momentos de tanta emoção quando, num grande esforço ele tentava recuperar a vida e eu criava alma nova.
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ADEUS, MEU QUERIDO

Faltavam apenas quatro dias para o aniversário de Jorge: ele completaria 89 anos. (...)

Os males do coração, que havia algum tempo não davam sinal de vida, voltavam novamente a se manifestar, desta vez dando sinal de morte.

Nesse mesmo 6 de agosto, Jorge nos deixou. Leio parte de uma frase, a última de Navegação de cabotagem:

Não vou repousar em paz, não me despeço, digo até logo, minha gente, ainda não chegou a hora de jazer sob as flores e o discurso.

Sentada no banquinho, sob a frondosa mangueira onde estão as suas cinzas, ao lado do sapo com o filhinho nas costas, invento uma cantiguinha que me traz de volta o sorriso de Jorge:

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Cadê o seu Jorge?
Está no seu jardim
Ao lado de Zélia
E de um pé de jasmim.

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Salvador, 28 de março de 2005.
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[texto e fotos extraídos do livro “Vacina de sapo e outras lembranças”, Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 102, 103, 104, 106, 107, 110 e 111]



segunda-feira, outubro 29, 2007

 

Zélia Gattai (V)


AINDA CARNAVAL

Jorge não era, como já disse, um folião, mas, por vezes, entregou os pontos. Chegou mesmo a desfilar, em 1989, no Rio de Janeiro, sobre um carro alegórico da Império Serrano, desfile comandado pelo carnavalesco Oswaldo Jardim.

Na semana anterior ao carnaval, visitamos o barracão da Império, já apelidado de Tenda dos Milagres, onde se encontravam os carros do desfile. (...)

O presidente da Império, Oscar Lino da Costa Filho, convidou-me para ser madrinha das baianas e, com elas, em sua ala, desfilar na passarela. Ofereceu-me uma roupa da escola, linda de morrer! Aceitei a fantasia, agradeci o convite, mas preferi estar ao lado de Jorge no carro alegórico, vestindo a mesma roupa da ala de minhas afilhadas que se exibiriam no asfalto.


MANHÃ DE TERÇA-FElRA

(...) A Império Serrano seria a última escola a desfilar, já na terça-feira pela manhã. A preocupação de Jorge não era a de ficar horas a fio de pé naquela altura, mas temia o sol daquela manhã de verão carioca, castigando. "Não se preocupe", disseram-lhe, "fará parte da decoração do carro uma tenda branca de cetim, colocaremos uma cadeira embaixo, onde o senhor poderá descansar se quiser e ficar abrigado."

De pé o tempo todo, Jorge desfilou no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, como tema do enredo Jorge Amado Axé Brasil. A seu lado, a família (...), amigos baianos vindos ao Rio (...), como nossos convidados (...). Amigos (...) vindos especialmente de Salvador (...), atores consagrados, amigos inesquecíveis (...) estavam na primeira fila, ao alto, do carro alegórico. Por vontade de Jorge, todos os amigos ficariam conosco lá em cima, mas ele não conseguiu, acabou se convencendo: o carro não resistiria ao peso.

Enquanto aguardávamos o sinal para a saída, lá de cima ficamos localizando os amigos, todos de branco, que acompanhariam, no chão, o nosso carro. Não foi difícil descobrir entre tanta gente nossas amigas francesas (...). As francesinhas pulavam e cantavam no maior entusiasmo, mais brasileiras do que qualquer uma. (...)

A Beija-Flor penúltima do desfile, acabara de passar. Às nove horas em ponto, sol alto, foi dado o sinal de partida. Nosso carro, empurrado por homens fortes, foi deslizando lentamente pela passarela do samba, rodeado pelo cortejo de amigos, todos cantando o samba-enredo Jorge Amado Axé Brasil, dos compositores Beto Sem Braço, Aluísio Machado, Bicalho e Arlindo Cruz, tendo como puxador Silvinho:
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Sob os olhos graciosos de Oxalá
Desce a Serrinha
Esquenta o País do Carnaval
É muita pimenta, dendê e cacau.
Você sabe que tem festa, meu amor
Lá na Tenda dos Milagres, vem que eu vou, eu vou
Jubiabá tá no portão
E as iaôs jogam Pitangas pelo chão
Com os pastores da noite
Vem gente lá das Terras do Sem-Fim
Oriundo lá das matas de Oxóssi e Ossain
O famoso Valentim
E ao som dos atabaques
Rola o suor dos Ogãs
Olha que papo maneiro
Entre os velhos marinheiros e
Os novos capitães
Vem gente que sofreu demais
Lá do sertão e da beira do cais
É doce morrer no mar
Nos braços de Iemanjá
Tereza Batista cansada de guerra
No samba de roda esquece as mágoas
Tieta se beber faz graça
Quincas Berro D’água agitando a massa
Põe tempero na panela, Gabriela
Mexe, mexe com amor, cozinha com teu calor
Bota logo o vatapá na tigela
Quem mandou foi Dona Flor
É gente que chega e tem gente pra chegar
Êkchêupa ba ba, ê, êkchêupa ba ba
Axé Brasil, pai Amado saravá, saravá.

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Entre aplausos, ovacionado pelo público, o povo das arquibancadas e os graúdos dos camarotes, nosso carro seguia lentamente. Milhares de pessoas que haviam passado a noite inteira ali, assistindo ao desfile de todas as escolas, não arredaram pé, continuavam firmes em seus postos e, na maior animação, saudaram a passagem de Jorge, aplaudindo-o de pé.

Em ritmo de samba, axé Brasil, axé Jorge Amado, lentamente, a Império Serrano percorreu a passarela e chegou nos oitenta minutos cronometrados, nem um a mais, nem um a menos, à praça da Apoteose. Tempo curto demais para tantas e tamanhas emoções que jamais se apagariam.

Embora cercado de seguranças, ao descer do carro, Jorge não deixou de abraçar e distribuir autógrafos aos integrantes da escola, que, segundo ele, lhe deu o maior prêmio de sua vida literária.

Rodeado de fotógrafos e repórteres, Jorge dizia: "Meu coração foi posto à prova hoje e acabei de descobrir que ele é forte. Jamais esquecerei este dia e acho que o desfile renderá muitas histórias."

No dizer de Charles Chaplin, "as coisas boas duram o tempo necessário para se tornarem inesquecíveis".

(...)
Fico às vezes pensando se tantas e tais emoções não teriam contribuído para o agravamento da saúde de Jorge, mas prefiro achar que tantas e tais emoções o teriam ajudado a aproveitar a beleza da vida, teriam prolongado sua alegria de viver.

[texto extraído do livro “Vacina de sapo e outras lembranças”, Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 65-70 e 76]


sábado, outubro 27, 2007

 

Zélia Gattai (IV)


A RAINHA DA RUA ALAGOINHAS
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Durante muitos anos as festas do Rio Vermelho se estenderam até nossa casa. O aniversário de Lalu, também a 2 de fevereiro, era festejado desde o romper da aurora até as tantas da noite. Carybé, o infalível, era o primeiro a chegar. Despertava-nos e a toda a vizinhança, soltando, de nosso jardim, barulhentos rojões, saudando a alvorada.

Para essa festa do aniversário da mãe, Jorge abastecia a casa com tudo do bom e do melhor e em grande quantidade. Mesmo assim, houve dia de faltar até água para os retardatários, no final da noite.

A presença de Viturina, mãe-pequena do candomblé do Bate Folha, era infalível, com seu famoso tabuleiro repleto de cocadas, brancas e pretas, e abarás. Com seu traje de baiana, instalada no jardim, não parava de fritar, num fogareiro ao lado, os mais deliciosos e dourados acarajés.

Nesse dia, Lalu era a própria Iemanjá, a receber cumprimentos, presentes e flores, de parentes, amigos ou de apenas conhecidos. Até desconhecidos iam chegando - não era open house? Sabendo do aniversário da mãe do escritor, havia quem aproveitasse a chance de conhecer a tão falada casa, levando, ao mesmo tempo, um presente para a rainha do mar e outro para a rainha da rua Alagoinhas.

Um gavetão da cômoda de Lalu ficava abarrotado de perfumes, talcos e sabonetes que ela recebia com prazer. Os presentes chegavam e mergulhavam no tal gavetão, jamais eram devolvidos, como, por vezes, acontecia com alguns de sua colega de festa, a caprichosa Iemanjá. Nas flores Lalu nem tocava, passava-as em seguida para mim, eu que tratasse de colocá-las em vasos, tantos que nem davam conta do recado. “A casa é tua”, dizia, “são para enfeitar tua casa...”

O que mais encantava Lalu era receber seus parentes, os sobrinhos que ela amava muito, e, sobretudo, abraçar seu irmão Firmo Ferreira Leal, a quem ela chamava de Zé Pedro. Coronel do cacau, desbravador da mata, homem direito, tio Firmo, mais do que a irmã, muito mais, tinha traços indígenas, não negava a raça. Ferreira Leal ele herdara do bisavô português que caçara a bisavó a dente de cachorro.

Até mamãe veio de São Paulo, certa vez, para o aniversário de Lalu. Ela tricotara um xale de lã para oferecer à aniversariante. Achamos que ela devia entregá-lo pessoalmente, aproveitando assim a ocasião de conhecer a festa de Iemanjá.

Enfrentando o medo do avião - ela dizia só temer a decolagem e a aterrissagem. Quando se via sobrevoando as nuvens, sentia-se garantida e o medo passava.

Lalu ficou contente com a vinda da velhinha. Era assim que ela se referia à mamãe, sendo que a velhinha era alguns anos mais nova do que ela. Em outras ocasiões que mamãe viera à Bahia, ficavam as duas conversando horas sem parar, mamãe grudada num tricô ou num crochê e Lalu contando histórias dos filhos, elogiando-os a mais não poder.

Lalu recebeu o xale: “Bonito, hem?” E em seguida comentou: “Coitada de dona Angelina, vive em São Paulo, uma geladeira, e pensa que na Bahia também faz frio.” Inda bem que a velhinha não ouviu o comentário.

Jorge fez questão de acompanhar mamãe à festa do largo para vê-la encantada com o movimento e a fila interminável de gente levando presente para Iemanjá: “Será que eles acreditam mesmo em milagres de sereia?”

Depois, em casa, mais assombrada ficou ao ver o entra-e-sai de pessoas que cumprimentavam a aniversariante, comiam, bebiam e iam embora.

Já bem tarde, fazíamos comentários sobre o movimento do dia quando mamãe disse: “Achei uma beleza a baiana fritando os acarajés, um cheiro se espalhando dava até água na boca!”

_ E quantos a senhora comeu? – perguntou-lhe Jorge.

_ Nenhum - respondeu.

_ Nenhum? Por quê?

_ Eu nem sabia quanto custava...

Todo mundo caiu na gargalhada, e dona Angelina tratou de mudar de assunto:

_ As pessoas aqui na Bahia são muito educadas. Teve até um homem que beijou minha mão.

_ E a senhora beijou a mão dele? – perguntou Lalu rindo.

_ Se eu beijei a mão dele? – admirou-se mamãe. _ Imagine...

Lalu não perdeu a ocasião de divertir-se:

_ Pois devia ter beijado. Aqui quando um homem beija a mão de uma mulher, ela beija a dele... Faz parte da educação baiana...

Mais tarde, a sós, mamãe comentou: “Essa sua madona é mesmo original!”

Não sei por que razão, mamãe sempre se referia a Lalu, chamando-a madona. Seria sogra em veneto?

O último aniversário de Lalu foi festejado em 1972. Ela partiu, nos deixou em março desse mesmo ano. Desde então, nessa data, em nossa casa de portas fechadas restou apenas um vazio enorme, uma saudade imensa.

[texto extraído do livro “Vacina de sapo e outras lembranças”, Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 55-59]
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sexta-feira, outubro 26, 2007

 

Zélia Gattai (III)


Iemanjá
Ilustração de Eugenia Iturria
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PROCISSÃO NO MAR DO RIO VERMELHO

De um velho pescador, ouvi, em tempos que lá se vão, a lenda de como surgiu a festa de Iemanjá, no Rio Vermelho.

“Já faz muitos anos”, começou o velho, “nem me lembro quantos, começou a sumir os peixe das água do mar. Eu, mais meus camarada, saía de madrugada por isso tudo e nada de peixe, nem pra remédio vinha uma pititinga na rede. Os balaio voltava puro. Os peixe tinha sumido.

Um dia, tava eu aperreado olhando o mar, pensando no que fazer de minha vida, quando apareceu diante de mim, uma dona que eu nunca tinha visto, uma desconhecida. Aí ela me perguntou:

_ Por que vosmicê está tão esmorecido?

_ E não era pra estar? - respondi. - Este mar secou de peixe. Não tenho mais do que viver.

_ Vosmicê pesca aqui faz quantos anos?

_ Uma porção deles - respondi. - Desde menino. Vinha sempre com pai.

_ Vosmicê sabia que quem governa esse mar é uma sereia? O nome dela é Iemanjá e ela é a rainha do mar. Iemanjá manda nisso tudo e tudo pode. Ela só não gosta de ingratidão. Vosmicê alguma vez já deu algum presente pra ela?

_ Presente?

_ Isso mesmo. Ela dá os peixes pra vosmicês, cadê? Nada.

_ E que presente eu posso dar pra ela, dona?

_ Iemanjá é bonita e faceira. Tudo que as mulheres da terra gostam ela também gosta: espelho para ver sua formosura, perfume pra se perfumar, pente pra se pentear... Ela também gosta muito de flores pra enfeitar as águas do mar. Dê um presentinho pra ela, moço, e aconselhe seus camaradas a dar também. Ela vai ficar contente, vosmicê vai ver. Quem agrada à rainha do mar não se arrepende. É o que lhe digo.

Acreditei nos conselho da dona, que, assim como apareceu, sumiu de minhas vistas. Avisei meus companheiro e logo começamo a jogar flor no mar e tudo o que a mulher falou. A gente saía de barco, ia lá pras lonjuras, onde nós achava que era a casa dela, e toma a jogar os presente na água! Cada coisa que nós atirava a gente ia adulando: Veja lá, dona moça bonita, dona rainha do mar, dona Iemanjá, veja lá se pode dar um jeito de arranjar uns peixinho pra nós. E foi assim que daí por diante os peixe voltou a aparecer.”

Segundo o pescador, a notícia se espalhou, correu de boca em boca e, como era 2 de fevereiro, o dia em que a mulher surgiu para o velho, todo o povo do Rio Vermelho e também gente de longe ficou sabendo. Foi então que multidões de pessoas começaram a aparecer nessa data trazendo o seu presente a Iemanjá e fazendo seu pedido.

O velho pescador ainda tinha uma coisinha a dizer:

“Inventaram por aí, não sei se é mentira ou se é verdade, que Iemanjá só recebe presente de gente que ela gosta. Quando é de gente falsa, interesseira, que ela não gosta, ela não aceita. Fica tudo boiando, não afunda como os de seu agrado.”

Os balaios enfileirados à beira do mar, no largo de Santana, começam a ser enchidos desde a madrugada do dia 2 e a fila que se forma para chegar a eles só termina no fim da tarde, quando a brisa do mar sopra mais forte e ajuda a empurrar as embarcações carregadas de oferendas, que, em verdadeira procissão, vão se afastando da praia, mar adentro, lentamente, até se perderem no horizonte. É lá, nessas lonjuras, que os presentes são atirados à água.

O velho pescador ainda tinha o que contar. Rindo, ele acrescentou:

“Com essa maluquice que inventaram de que Iemanjá só aceita presente de quem ela gosta e que quando ela não gosta eles não afunda, ninguém nem imagina cada coisa que levam pra ela! Até máquina de costura eu já vi.”
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[texto extraído do livro “Vacina de sapo e outras lembranças”, Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 49-52]
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“Todas as lendas são assim:
Pra relembrar o que não aconteceu...”

[Lendas Brasileiras - Guinga & Aldir Blanc]
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.Dois de fevereiro
Dorival Caymmi

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Iemanjá

Escrevi um bilhete a ela
Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar

O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
_ Chegou! Chegou! Chegou!
Afinal que o dia dela chegou!




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A Praia do Rio Vermelho está situada no bairro do mesmo nome, distante cerca de 8 km do centro da cidade. Antigamente, um dos costumes mais cultivados pelas famílias de Salvador era o veraneio, sendo a Praia do Rio Vermelho a localidade preferida. [...]

Na Praia do Rio Vermelho é onde acontece todo o ano a tradicional festa de Iemanjá, dia 2 de fevereiro, quando filhas e mães de santo, babalorixás, pescadores, turistas e curiosos cantam e homenageiam Iemanjá, uma manifestação religiosa pública do Candomblé. As oferendas, presentes e pedidos à rainha do mar são depositados na Casa de Iemanjá e guardados em balaios que, no final da tarde, acompanham o presente principal (oferecido pela comunidade dos pescadores) jogado ao mar por um cortejo de centenas de embarcações.

A Praia do Rio Vermelho é porto de barcos de pesca e canoas. É comum encontrar-se, logo de manhã cedo ou no final de tarde, pescadores retornando com os frutos de mais um dia de trabalho. [...]

Fonte: http://www.emtursa.ba.gov.br/Template.asp?IdEntidade=3868&Nivel=0002000500010009
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veraneio [Dev. de veranear]
Substantivo masculino
1. Ato de veranear.

veranear [De verão + -ear, seg. o padrão erudito]
Verbo intransitivo.
1. Passar o verão: Toda a família foi veranear em Teresópolis.
2. Passar fora o verão: Todos os anos veraneia. [Conjug.: v. frear.]
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Obs.: Este é o meu 100°post!


terça-feira, outubro 23, 2007

 

Zélia Gattai (II)


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Zélia deu um depoimento sobre sua "tardia" profissão de escritora, numa entrevista concedida à revista Caros Amigos (em julho/99), na qual conta também algumas historinhas pitorescas:

Zélia Gattai não lamenta ter começado a escrever só com 63 anos de idade. Trata-se de apenas uma circunstância. Uma contingência. Afirma:

_ Acho até bom que tenha sido assim. Só escrevo memórias e quem escreve memórias precisa, antes de tudo, ter vivido. E vivido muito. Outra coisa: para escrever memórias é preciso ter amadurecido na existência. E mais: não pode ter ódios, desejo de se vingar de alguém. Para escrever memórias é preciso ter um olhar para o passado com bom sentimento. As memórias, no fundo, representam um ensinamento da vida.
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Ela lembra que Jorge Amado participa de todos os seus livros única e exclusivamente como personagem. Não interfere em nada, quando os livros estão sendo escritos. Não dá palpite. Aliás, deu palpite, sim, mas uma vez. Foi quando Zélia escreveu Crônica de uma Namorada, em 1994. Os dois passavam temporada em Paris. De repente, Zélia começou a se mostrar aflita. Inquieta, andava de um lado para outro, em silêncio. Jorge quis saber o que estava ocorrendo, Zélia decidiu dizer:

_ Olha, Jorge, é que não consigo mais levar o romance adiante. Perdi o controle dos personagens. Um deles está querendo abusar de uma prima bem mais nova. Já se aproveitou dela, mexeu nela. Pior de tudo é que a menina está gostando. Não sei o que fazer com ele.

Jorge Amado olhou Zélia de alto a baixo e fez apenas um comentário que foi também uma sentença:

_ Zélia, não se meta na vida dos outros!

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(...) As pessoas quase sempre confundem Jorge Amado e Dorival Caymmi. Zélia, no entanto, diz que de parecido os dois só têm a cabeça branca. Certa vez, Jorge e Caymmi foram ao terreiro de Mãe Menininha do Gantois. O terreiro estava cheio de turistas. Foi um alvoroço. Uma senhora do grupo chegou-se junto a Jorge e perguntou:
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_ O senhor não é o Dorival Caymmi?

_ Não sou Dorival Caymmi, mas sou o irmão dele!
– respondeu Jorge Amado.
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Certa vez perguntaram a Caymmi:

_ Jorge Amado, como vai o livro?

Caymmi não se fez de rogado:

_ Vai indo, vai indo!
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Outra história: um dia, Vinicius de Moraes passou o dia inteiro na casa do Rio Vermelho. Ao sair, início da noite, foi cercado por um grupo de jovens na calçada. Todos queriam um autógrafo:

_ Seu Caymmi, assina aqui no meu livro!

E Vinicius deu dezenas de autógrafos assinando Dorival Caymmi, Dorival Caymmi, Dorival Caymmi...
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Com Zélia a confusão ocorreu da mesma maneira quando, certa vez, numa tarde, visitou Mãe Menininha do Gantois. Perguntou a um preto velho sentado junto à janela se Mãe Menininha estava em casa.

O preto gritou:

_ Ô Lucinha, avise a Mãe Menininha que a mulher do seu Carybé está aqui.

Zélia Gattai se apressou em corrigir:

_ Não sou mulher de Carybé, não! Sou a mulher de Jorge Amado!

O preto velho não se perturbou. Apenas disse:

_ É tudo a mesma coisa!


sábado, outubro 20, 2007

 

Zélia Gattai (I)


O Lord fala de Jorge Amado, em seu blog, através de uma crônica do João Ubaldo, no Estadão. Aproveito o gancho, então, pra falar de Zélia Gattai, sua companheira, que escreve, em seu livro Vacina de sapo e outras lembranças [Editora Record, 2005]:
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foto da capa do livro
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O PRIMEIRO BEIJO

Foi naquela noite, a da reunião de amigos no apartamento de Jorge, com a revelação do sangue pataxó correndo em suas veias, que aconteceu nosso primeiro beijo.

Em certo momento, ele me pediu que o ajudasse a servir os convidados. Fui à cozinha buscar uns copos. Estava eu acabando de ajeitar os copos na bandeja, quando Jorge apareceu. "Vim buscar os vinhos", disse. Ambos de mãos ocupadas, voltávamos à sala, Jorge com uma garrafa em cada mão, eu segurando a bandeja, equilibrando os copos. Ao passarmos por uma porta, juntos um ao outro, paramos, de repente, sem saber por que, e nos fitamos. Nem a barreira de copos entre nós dois impediu que nossas bocas se aproximassem. Sem braços para abraçar, sem mãos para acariciar nem voz para sussurrar, apenas os lábios livres, sequiosos, se uniram num beijo delicado e ardente, de labareda e brasa.

Um contido tesão rolando entre nós dois desde o início, escravizado, reprimido a duras penas, rompeu as amarras, conquistou a alforria. Nessa noite não voltei para minha casa. Nem nessa noite, nem nunca mais. Ao lado de Jorge ficaria para sempre, até o fim de minha vida.

[texto extraído do livro "Vacina de sapo e outras lembranças", Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 25-26]

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E ficou. Até o fim da vida dele (em agosto de 2001).
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REMINISCÊNCIAS

Costumo contar, e não me canso de repetir, que ao conhecer Jorge Amado pessoalmente, em 1945, eu tudo sabia dele. Lera e adorara os dez livros que ele escrevera até então; entusiasmavam-me suas idéias políticas, sabia de seus exílios. Só não sabia que ele era tataraneto de uma índia pataxó.

Certa noite, numa reunião de amigos no apartamento que ele alugara e onde vivia em São Paulo, na praça Júlio de Mesquita, ao lado da São João, o tema da conversa, muito ao gosto do dono da casa, girava em torno de miscigenação. Entre outros amigos, lá estavam Dorival Caymmi - na ocasião seu hóspede -, Di Cavalcanti, Clóvis Graciano, Paulo Mendes de Almeida com Aparecida.

_ Por exemplo – dizia Jorge –, a começar por mim, nenhum de nós aqui é branco puro, todos nós temos mistura de raças. O sangue branco que eu trago vem do português que caçou na mata minha tataravó, uma índia pataxó. O sangue negro é do avô de meu pai, um negro africano.

Todo mundo caiu na risada ao ouvir a revelação de Jorge sobre a existência de uma tataravó índia e de um bisavô africano.

Para dizer a verdade, por mais apaixonada que eu estivesse por ele, não consegui acreditar nessa declaração. Achei que era uma invenção criada na hora para causar impacto. Nunca ouvira falar que Jorge tivesse sangue indígena e para mim ele era tão branco quanto eu. Entrei na conversa:

_ Pois eu - respondi - só tenho sangue branco. Meus pais são italianos puros.

Jorge soltou uma gargalhada:

_ Pois é o que você pensa! E OteIo? Você não sabia que é descendente de Otelo?

Esse Jorge inventava cada uma!

_ Eu tenho parentesco com OteIo assim como você é tataraneto de uma índia pataxó - respondi, na maior gozação.

_ Você não acredita que eu tenha sangue índio? Pois vai acreditar um dia quando conhecer minha mãe. Ela não tem apenas traços indígenas como também cabelos lisos, escorridos como os dos índios. Quanto a você, de seu parentesco com o negro OteIo, nunca vai se livrar...

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CANTADA EM POEMA

Um clima de encanto existia entre Jorge e eu desde o primeiro encontro, porém, nenhuma manifestação concreta ainda acontecera. Ele apenas declarava seu amor através de crônicas diárias, na coluna "Conversa Matutina" que escrevia para um jornal de São Paulo. "Leu a de hoje?", perguntava-me, encabulado, como se um adolescente fosse. Afirmando com a cabeça que sim, também voltava à adolescência, e ficava nisso.

Uma dessas crônicas, verdadeiro poema de amor, quase me mata:

Eu te darei um pente
para te pentear
Colar para teus
ombros enfeitar
Rede para te embalar
O céu e o mar eu vou te dar...

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NOVAS ESTROFES DE AMOR

Três anos mais tarde, em Paris, Jorge fez novas estrofes para o poema que me dedicara em 1945 na sua coluna "Conversa Matutina". O maestro Cláudio Santoro a musicou e orquestrou. (...)

Outra coisa já não sei fazer
Onde quer que te encontres, ai
Meu distante pensamento
Terno carinho meu
Hei de sempre te amar.

Venha, que a noite é longa
Triste da tua ausência
Meu infinito amor...

[texto extraído do livro “Vacina de sapo e outras lembranças”, Zélia Gattai, Editora Record, 2005, pp. 23-25 e 30-31]

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Zélia Gattai estreou como escritora aos 63 anos, ultrapassando todos os obstáculos e consagrando-se como uma das melhores representantes da literatura brasileira. Anarquistas, graças a Deus foi seu primeiro romance e narrou a saga da família Gattai. Filha de imigrantes italianos que chegaram a São Paulo no começo do século, Zélia conta histórias da sua família, composta por anarquistas que pregavam a fundação de uma sociedade sem leis, sem religião ou propriedade privada, em que mulheres e homens tivessem os mesmos direitos e deveres. Como cenário, a descrição do cotidiano de uma cidade em desenvolvimento. Filha e neta de imigrantes italianos, Zélia Gattai nasceu no dia 2 de julho de 1916. Aos vinte anos, casou-se em São Paulo com o intelectual e militante do Partido Comunista, Aldo Veiga, com quem teve seu primeiro filho, Luiz Carlos. O casamento a aproximou de renomados intelectuais: Oswald de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, entre outros. Em 1938, seu pai, Ernesto Gattai, foi preso pela Polícia Política e Social de São Paulo, durante o Estado Novo, o que fez Zélia se tornar cada vez mais atuante na vida política. Em 1945, separou-se de seu primeiro marido e conheceu Jorge Amado, durante o I Congresso de Escritores. Após um período de trabalho, militância e flerte, Jorge confessou seu amor por Zélia e os dois decidiram viver juntos. No ano seguinte, mudaram-se para o Rio de Janeiro, após o ingresso de Jorge na Assembléia Constituinte. Em 1948, Jorge e Zélia foram exilados e viveram na Europa por cinco anos. Nesse ínterim, nasceu Paloma, segunda filha do casal, natural de Praga. Neste período, o casal participou intensamente da vida cultural européia, ao lado de personalidades como Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Paul Éluard, Picasso, Fréderic Curie. No início da década de 1960, o casal mudou-se para Salvador, Bahia, bairro do Rio Vermelho. Em 1978, Jorge e Zélia, após 33 anos de vida em comum, oficializaram a união. Um ano após a mudança para a Bahia, Zélia lançou seu primeiro livro, Anarquistas, graças a Deus, um relato emocionante da vida dos imigrantes italianos na São Paulo do começo do século. Em 1982, com a mesma leveza de quem conta uma história para uma amiga, Zélia publicou Um chapéu para viagem, no qual conta histórias sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, a queda da ditadura Vargas, a anistia dos presos políticos, a redemocratização do país. Senhora dona do baile, o terceiro livro, tem como cenário dois mundos separados por uma cortina de ferro e apresenta a seus leitores algumas das personagens mais importantes da História deste século. Seu quarto livro, Jardim de inverno, reúne recordações do exílio e do continente europeu dividido em leste e oeste. A obra recebeu o Prêmio Destaque do Ano e acabou gerando um convite para uma visita à Rússia de Gorbatchev e sua mulher Raissa. Crônica de uma namorada, publicado em 1995, embaralha personagens reais e fictícios para contar as experiências e emoções de uma adolescente que descobre, na São Paulo dos anos 1950, o amor. Para o público mais jovem, dois livros: Pipistrelo das mil cores e O segredo da rua 18. Em 1999, Zélia lançou A casa do Rio Vermelho, coletânea das memórias do casal e da casa em que viveram durante 21 anos. Neste período, freqüentaram a sala de visitas do casal Gattai-Amado os mais ecléticos convidados do Brasil, Europa e América, desde Pablo Neruda até Antonio Carlos Magalhães. Em 2000, lançou Città di Roma, em 2001 Códigos de família e em 2004, Memorial do amor.

Obras:

ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS - 1979 (memórias)
UM CHAPÉU PARA VIAGEM – 1982 (memórias)
SENHORA DONA DO BAILE – 1984 (memórias)
REPORTAGEM INCOMPLETA - 1987 (memórias)
JARDIM DE INVERNO – 1988 (memórias)
PIPISTRELO DAS MIL CORES - 1989 (literatura infantil)
O SEGREDO DA RUA 18 – 1991 (literatura infantil)
CHÃO DE MENINOS – 1992 (memórias)
CRÔNICA DE UMA NAMORADA - 1995 (romance)
A CASA DO RIO VERMELHO - 1999 (memórias)
CITTÀ DI ROMA - 2000 (memórias)
JONAS E A SEREIA - 2000 (literatura infantil)
CÓDIGOS DE FAMÍLIA – 2001 (memórias)
UM BAIANO ROMÂNTICO E SENSUAL – 2002 (memórias)
MEMORIAL DO AMOR - 2004 (memórias)
VACINA DE SAPO E OUTRAS LEMBRANÇAS – 2005 (memórias)
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Links:
http://www.record.com.br/detalhe.asp?titulolivro=7244&busca_tipo=T&busca_palavra=vacina%20de%20sapo
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT861446-1655,00.html
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT861053-1666,00.html


terça-feira, outubro 16, 2007

 

Boca Livre & MPB4


Arnaldo comentou, no post anterior, sobre o disco Folia:

“Este é o terceiro disco do Boca Livre e aquele do qual mais gosto. Gosto, particularmente, da faixa Se meu jardim der flor. A música nem é lá grande coisa, mas o que me chama a atenção é a participação do grupo MPB4. Nesta gravação, dá pra perceber, claramente, as diferenças de estilo dos dois grupos vocais. Ambos ótimos.”

Fica, então, aqui, a gravação convertida também do vinil:
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Ilustração: André Havro


Se meu jardim der flor
Zé Renato & Xico Chaves

Se meu jardim der flor
Colore minha saudade
No meio dessa cidade
Que a manhã clareou

Virá um beija-flor
Aqui e ali sem pousar
E vai entrar nos meus olhos
Só pra te encontrar

Dê asas ao amor
Que vive dentro de todo bom coração
Pro mundo ser mais bonito
Em cada palmo de chão
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Pro Lord, que gosta de grupos vocais.



sexta-feira, outubro 12, 2007

 

Desenredo, ainda



Atendendo à solicitação do Anderson [Alves], no post anterior, que queria ouvir esta canção na voz de Zé Renato [Boca Livre], coloco a gravação extraída do LP Folia (1981). Demorei pra postá-la, porque não sei converter músicas a partir do vinil. Esperei o Arnaldo voltar de viagem e aí está. É a gravação, desta música, qu'ele prefere.
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Desenredo
Dori Caymmi & Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte, o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego
Eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê Minas, ê Minas
É hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Ê Minas, ê Minas
É hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe
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desenredo (ê) [Dev. de desenredar]
Substantivo masculino.
1. Ato ou efeito de desenredar.
2. Solução, desenlace, desfecho.
3. Teatro Ver catástase (2). [Pl.: desenredos (ê). Cf. desenredo, do v. desenredar.]

desenredar [De des- + enredar]
Verbo transitivo direto
1. Desfazer o enredo de; estirar ou separar (o que estava enredado); desenlear, desembaraçar, desemaranhar: “A flor da vaga, o seu cabelo verde, / Que o torvelinho enreda e desenreda...” (Camilo Pessanha, Clepsidra e Outros Poemas, p. 195.)
2. Resolver, destrinçar (negócio ou questão complicada).
3. Descobrir; esclarecer; desintricar; desintrincar: desenredar a trama de um mistério.
Verbo transitivo direto e indireto
4. Desembaraçar, livrar, libertar: Desenredou o cipó dos galhos que o prendiam.
Verbo pronominal
5. Desenlaçar-se, soltar-se.
6. Tornar-se claro, nítido, perceptível.
7. Desembaraçar-se, desemaranhar-se.
8. Sair de apuros; desembaraçar-se. [Pres. ind.: desenredo, etc. Cf. desenredo (ê).]


sábado, outubro 06, 2007

 

Nana (V)


A 7ª faixa traz outra ótima canção desta parceria. Gravada por Dori, no disco Dori Caymmi (1980); pelo Quarteto em Cy, no disco Caminhos cruzados - Caymmis, Lobos & Jobims (1981) e por Renato Braz, no CD Quixote (2002). Boca Livre também a gravou no disco Folia (1981), que não foi transformado em CD. Em 1994, ela aparece no CD Songboca.
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Desenredo
Dori Caymmi & Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte, o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego
Eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê Minas, ê Minas
É hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Ê Minas, ê Minas
É hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe









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Obs.: As músicas sobrecarregam a página inicial, tornando o acesso ao blog mais difícil. Deixarei, então, os links para os posts musicais anteriores:

Nana (IV)
Nana (III)

Nana (II)

Nana (I)



sexta-feira, outubro 05, 2007

 

Nana (IV)


A 11ª faixa traz a linda canção de seu irmão, Dori, em parceria com o poeta Paulo César Pinheiro: Tati, a garota, trilha sonora do 1° filme de Bruno Barreto (1973), com Dina Sfat, Hugo Carvana & Daniela Vasconcelos [Tati]. Gravada também no disco Dori Caymmi (1980):
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Tati, a garota
Dori Caymmi & Paulo César Pinheiro

Era uma criança tão singela
Só que Deus pôs dentro dela
O mistério da tristeza
Era inocente sem saber
Que a dor que sente
Era herança de uma dor maior
Com esse olhar tão só
Caminha essa criança tão sozinha
Numa estrada que não volta nunca mais

Ah, se eu pudesse fazer
Você jamais crescer
Eu ia cuidar de você
Qual nada, uma criança já marcada
À mercê de triste herança
Solidão, dor e distância
A viver a infância como nunca mais
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quinta-feira, outubro 04, 2007

 

Nana (III)


Na 10ª faixa, uma composição de Tom & Chico, que Elis já havia gravado no disco Elis & Tom, em 1974, e Quarteto em Cy & MPB4 gravaram-na no CD Bate-boca As músicas de Tom Jobim & Chico Buarque (1997):

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Pois é
Tom Jobim & Chico Buarque
(1968)

Pois é
Fica o dito e redito por não dito
E é difícil dizer que ainda é bonito
Cantar o que me restou de ti

Taí
Nosso mais-que-perfeito está desfeito
E o que me parecia tão direito
Caiu deste jeito sem perdão

Então
Disfarçar minha dor já não consigo
Dizer que nós somos bons amigos
É muita mentira para mim

E enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação

Pois é, e então...

















quarta-feira, outubro 03, 2007

 

Nana (II)


A primeira faixa deste disco da Nana traz uma linda canção de Ivan Lins & Vitor Martins:



Mãos de Afeto
Ivan Lins & Vitor Martins

Preparei minhas mãos de afeto
Pra esse rapaz encantado
Pra esse rapaz namorado
O mais belo capataz
De todos os cafezais
O mais belo vaqueiro
De todos os cerrados

Eu tinha um ombro de algodão
Pra ajeitar seu sono
Eu tinha uma água morna
Pra lavar o seu suor
E o meu corpo uma fogueira
Pra esquentar seu frio
E minha barriga livre
Pra gerar seu filho

Preparei minhas mãos de afeto
Pra esse rapaz encantado
Pra esse rapaz namorado
Que partiu pra nunca mais
Traído nos cafezais
E os seus olhos roubaram
O verde dos cerrados
E os meus olhos lavaram
Todos os meus pecados





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Fica aqui também a gravação de Ivan Lins, no disco Somos todos iguais esta noite (1977):





terça-feira, outubro 02, 2007

 

Nana (I)



Num post sobre Djavan, falei que Nana Caymmi gravou “Dupla traição” no disco Renascer (1976), mas não coloquei a gravação, pois não tínhamos o CD, só vinil. Agora, temos. Então, deixo também aqui esta versão (um boleraço!):

Dupla traição
Djavan

Você chegou
Você me viu
Você falou
Você me iludiu
Me beijou
E agora amor?

Você dormiu
Se retirou
E eu fiquei
Você destruiu
O que fez
E agora, amor?

Na minha opinião
Isso é dupla traição
Se você não sabe pedir
Perdão
Volta que eu quero morrer de alegria
Depois agradecer

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Obs.: Se quiser ver & ouvir mais canções do Djavan, opte por alguma delas, aqui:
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Outono
Cigano
Mal de mim
Azul
Nem um dia
A rota do indivíduo
Aliás
Topázio
Dupla traição
Álibi
Samurai
Sim ou não
Samba dobrado
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BAP (IV)


Quando abro a Carta Capital, começo sempre pela última página. Adoro as fotos! A desta semana [Edição 464 - 28/09/2007] traz o Baptistão (e seu auto-retrato):

Baptistão
por Olga Vlahou


Baptistão: Estilo, humor e crítica nos traços do premiado artista
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Em seu blog, ele diz, modestamente:

30/09/2007

(...) Quem viu a revista Carta Capital desta semana deve ter achado estranha a última página. Eu também achei.
Fui escolhido para figurar na seção Retratos Capitais, em que grandes personalidades de várias áreas são clicadas especialmente para a revista.
Como passo longe de ser uma grande personalidade, tentei argumentar que havia algum engano. Mas a editora de fotografia Olga Vlahou insistiu.
De modo que devo ser a pessoa mais comum a aparecer nessa página.
Vendo a coisa por outro lado, achei muito legal por parte da revista ter escolhido destacar um ilustrador. Nossa profissão não é das mais valorizadas, e muita gente nem mesmo sabe que ela existe. Não raro, nos confundem com os lustradores.
Podemos questionar a escolha do ilustrador, mas acho que a categoria agradece a distinção.
Obrigado à Olga, ao Mino Carta e ao George Duque Estrada, de quem partiu a idéia, pelo tão honroso quanto inesperado convite.


Escrito por Baptistão às 20h26

Leia mais sobre o Baptistão nos links:
Elis por Bap
BAP (III)
BAP (II)
BAP (I)

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Alerta: Se você chegou aqui, clicando no mês de outubro, sugiro que não acesse o mês de setembro, que traz músicas do Djavan (pois trava tudo!). Ao invés disso, vá no post acima: Nana (I) e escolha, uma a uma, as músicas que lhe interessarem.


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