quarta-feira, janeiro 24, 2007

 

O caçador de pipas (I)


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Listas de best-sellers não me atraem. Assistindo ao programa Sem Censura, da TVE Brasil, com apresentação de Leda Nagle, numa tarde qualquer, convidados escritores elogiaram este livro e seu autor. Diziam que era um bom livro pra se dar de presente. Fiquei interessada e o comprei. Gosto do título. Gosto da capa. O afegão Khaled Hosseini é um ótimo contador de história e a tradução, do original em inglês, de Maria Helena Rouanet, muito boa, aparentemente. Tenho sempre este receio, ao ler livros de autores estrangeiros, se estarão bem traduzidos.


Obs.: A revista Língua Portuguesa, n° 14, 12/2006, traz um artigo interessante sobre o tema: “Traduções pelo espelho – a adaptação para o português de ‘Alice no país das maravilhas’ desafia a criatividade”, de Gabriel Perissé:

Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi publicado em 1865. Quando Lewis Carroll morreu, em 1898, tinham sido vendidos 180 mil exemplares do livro, cifra que superou largamente suas expectativas. Em 1872, lançou Através do Espelho e o que Alice encontrou Lá. Estas obras fizeram daquele professor de matemática meio excêntrico e distraído, cujo verdadeiro nome era Charles Lutwidge Dodgson, um clássico da literatura universal.
Lewis Carroll definiu esses dois livros como fruto de uma escrita do nonsense. Explicação sincera, mas modesta demais. A timidez não lhe permitiu reconhecer que se tratava de uma das aventuras imaginativas mais intensas já feitas no plano da criação literária. Harold Bloom viu nesse autor a capacidade genial de "matar o tempo" com o poder da invenção. O tempo assassinado é tempo multiplicado. O "espaço" imaginário faz-nos transcender relógios e cronômetros. Ao entrar com Alice na toca do Coelho Branco, ou com ela atravessar o espelho, ingressamos no âmbito do atemporal, no qual prevalece uma lógica própria, que dá sentido aos acontecimentos mais absurdos da narrativa.
Como ocorre com outras obras-primas, as histórias de Alice não se deixam encerrar na chamada "literatura infantil". Interessam a leitores de todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e classes sociais. Não só pelo encantamento do relato em si, ou pela galeria de personagens estranhos que a menina encontra em cada capítulo, mas pela engenhosidade da linguagem. E o que desafia os tradutores é justamente essa engenhosidade.
Monteiro Lobato, cumprindo seu projeto editorial, traduziu/adaptou Alice em 1931. Em nome desse projeto, driblou grandes ou pequenas dificuldades, mais preocupado em situar Alice no mundo do brasileiro do que em situar a este no mundo de Alice. No prefácio, justifica-se:
"Traduzir uma obra como a de Lewis Carroll, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho de uma menina travessa - sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, com referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês -, isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos.
Para a mentalidade dos brasileirinhos, Lobato (são palavras suas no prefácio) "fez o que pôde". Um desses pequenos leitores foi Ruy Castro, que leu Alice na adaptação de Lobato em 1953, com 5 anos.
- A vida nunca mais é a mesma depois que se penetra no reino das palavras - diz Ruy ao comentar sua experiência de leitura.
Quatro décadas depois, em 1992, Ruy acabou escrevendo também uma adaptação pessoal de Alice para o português, primeiro livro da Companhia das Letrinhas, atualmente esgotado.
À disposição nas livrarias, encontramos pelo menos quatro traduções de Aventuras de Alice no País das Maravilhas. O trabalho do poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite (Summus Editorial, 1977). A tradução de Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998). A edição comentada por Martin Gardner, traduzida por Maria Luiza X. de A. Borges (Jorge Zahar Editor, 2002). E a de Márcia Feriotti Meira (Editora Martin Claret, 2005). Analisemos aqui um trecho traduzido por eles.

LEWIS CARROL

“Once, said the Mock Turtle at last, with a deep sigh, I was a real Turtle.”
These words were followed by a very long silence, broken only by an occasianal exclamatian of "Hjckrrh!" from the Gryphon, and the constant heavy sobbing of the Mock Turtle.

SEBASTIÃO UCHOA LEITE

- Outrora - começou enfim a Falsa Tartaruga, com um profundo suspiro - eu era uma verdadeira tartaruga.
Essas palavras foram seguidas por um longo silêncio, rompido apenas por ocasional "Hjkrrh!" do Grifo e soluços constantes da Falsa Tartaruga.

"HJCKRRH!" É UMA EXCLAMAÇÃO SEM VOGAIS. O TRADUTOR OMITIU A CONSOANTE "C", POR CONSIDERAR QUE O "K" EM PORTUGUÊS SERIA SUFICIENTE PARA O SOM QUE LEWIS DESEJAVA INVENTAR.

MARIA LUIZAX. DEA. BORGES

"Antigamente", disse a Tartaruga Falsa com um suspiro profundo, "eu era uma Tartaruga de verdade."
Essas palavras foram seguidas por um silêncio muito longo, quebrado apenas por uma exclamação ocasional – "Hjcrrh!" – do Grifo e o soluçar constante e fundo da Tartaruga Falsa.

NESTA VERSÃO FOI O "K" A DESAPARECER DA EXCLAMAÇÃO. E A TRADUTORA ESTÁ ATENTA A OUTROS DETALHES. NÃO SE TRATA APENAS DE UM LONGO SILÊNCIO, MAS DE UM SILÊNCIO "MUITO LONGO": "VERY LONG".

ROSAURA EICHENBERG

"Antigamente", disse a Tartaruga Falsa por fim, com um profundo suspiro, "eu era uma Tartaruga verdadeira."
Essas palavras foram seguidas por um longo silêncio, só quebrado por uma exclamação ocasional de "Hjckrrh!", do Grifo, e o soluçar pesado e constante da Tartaruga falsa.

A EXCLAMAÇÃO "HJCKRRH" DESTA VEZ SURGE COM TODAS AS CONSOANTES DO ORIGINAL. O GRUNHIDO DE UM AUTÊNTICO GRIFO NÃO MERECE MENOS CONSIDERAÇÃO...

MÁRCIA FERIOTTI MEIRA

- Há muitos e muitos anos... - iniciou a Tartaruga Falsa, finalmente, com um suspiro profundo - eu era uma Tartaruga de verdade.
Essas palavras foram seguidas de um longo silêncio, quebrado apenas por um guincho ocasional do Grifo e pelo soluço constante e profundo da Tartaruga Falsa.

"SOLUÇO PROFUNDO" PARA "HEAVY SOBBING" NÃO FOI BOA OPÇÃO. "SOLUÇO PESADO" SERIA MELHOR. E O ADJETIVO "PROFUNDO" JÁ TINHA SIDO USADO LOGO ACIMA, PARA "DEEP".

LEWIS CARROL

"[…] The master was an old Turtle - we used to call him Tortoise -"
"Why did you call him Tortoise, if he wasn't one?" Alice asked.
"We called him Tortoise because he taught us, "said the Mock Turtle angrily: "really you are very dull! "

SEBASTIÃO UCHOA LEITE

- [...] A professora era uma velha tartaruga... e nós a chamávamos de Torturuga...
- Mas por que Torturuga, se ela era uma tartaruga? perguntou Alice.
- Nós a chamávamos de Torturuga porque aprender com ela era uma tortura - respondeu irritada a Falsa Tartaruga. - Na verdade você é bem obtusa, hein?

A DIFICULDADE ESTÁ EM REPRODUZIR O TROCADILHO "TORTOISE"/"TAUGHT US". TORTOISE É A TARTARUGA TERRESTRE, MAIS PROPRIAMENTE FALANDO, O JABUTI. TURTLE É A TARTARUGA MARÍTIMA. O TROCADILHO "TORTURUGA"/"TORTURA" ENFATIZA O LADO CRUEL DA VIDA ESCOLAR.

MARIA LUIZAX. DEA. BORGES

"[...] O mestre era um Cágado velho... nós o chamávamos de Tartarruga."
"Por que o chamavam de Tartarruga, se ele não era uma?" Alice perguntou.
"Nós o chamávamos de Tartarruga porque tinha... tanta ruga! Respondeu a Tartaruga, irritada, "realmente você é muito bronca!"

AQUI, O TROCADILHO DESENTRANHA UMA PALAVRA EMBUTIDA NA PALAVRA MAIOR: "TARTARRUGA", COM A DUPLICAÇÃO DO "R", FAZ O LEITOR PERCEBERA "RUGA", SINAL DE VELHICE E SABEDORIA. CÁGADO É SEMI-AQUÁTICO, O QUE JUSTIFICA A PERPLEXIDADE DE ALICE: UMA TARTARUGA MARITIMA NÃO É EXATAMENTE UM CÁGADO.

ROSAURA EICHENBERG

''[...] A mestra era uma velha Tartaruga... nós a chamávamos de Jabuti..."
"Por que a chamavam assim, se ela não era um Jabuti?", perguntou Alice.
"Nós a chamávamos de Jabuti, porque ela nos botava algo na cabeça", disse a Tartaruga Falsa zangada. "Realmente você é muito estúpida!"

A TRADUTORA TENTOU O TROCADILHO "JABUTI"/"BOTAVA". SUA DECISÃO DEVE-SE AO DESEJO DE SER FIEL À TRADUÇÃO DE "TORTOISE". POR OUTRO LADO, TRANSFORMAR O ENSINAR (VERBO "TO TEACH") EM "BOTAR ALGO NA CABEÇA" EMPOBRECE A FRASE.

MÁRCIA FERIOTTI MEIRA

- [...] Nossa professora era uma Tartaruga bem velhinha... a qual costumávamos chamar de Professora Jabotina...
- Por que é que a chamavam de Jabotina, se era uma Tartaruga? - questionou Alice.
- Por que ela assim nos ensinou - respondeu a Tartaruga Falsa, irritada. Ora, você é realmente muito inconveniente!

"PROFESSORA JABOTINA" É INTERESSANTE, MAS O TROCADILHO DO ORIGINAL FOI SIMPLESMENTE IGNORADO. TRADUZIR "DULL" POR "INCONVENIENTE" ENFRAQUECE A REPRIMENDA. AS OUTRAS TRÊS TRADUÇÕES - "OBTUSA", "BRONCA", "ESTÚPIDA" – CUIDARAM MELHOR DESSE PONTO.

Gabriel Perissé é professor do Programa de Mestrado em Educação da Uninove (SP).
www.perisse.com.br

[extraído da revista Língua Portuguesa, págs. 63-64 – Ano II – n° 14- 2006]

Dados do livro:
O caçador de pipas
Título original: THE KITE RUNNER
Autor: Khaled Hosseini
Tradução: Maria Helena Rouanet
2003
EDITORA NOVA FRONTEIRA

O primeiro capítulo:
UM

Dezembro de 2001

EU ME TORNEI O QUE SOU HOJE aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava agachado por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava perto do riacho congelado. Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto.
Um dia, no verão passado, meu amigo Rahim Khan me ligou do Paquistão. Pediu que eu fosse vê-lo. Parado ali na cozinha, com o fone no ouvido, sabia muito bem que não era só Rahim Khan que estava do outro lado daquela linha. Era o meu passado de pecados não expiados. Depois que desliguei, fui passear pelo lago Spreckels, 10 KHALED HOSSEINI na orla norte do parque da Golden Gate. O sol do início da tarde cintilava na água onde navegavam dezenas de barquinhos em miniatura, impulsionados por um ventinho ligeiro. Olhei então para cima e vi um par de pipas vermelhas planando no ar, com rabiolas compridas e azuis. Dançavam lá no alto, bem acima das árvores da ponta oeste do parque, por sobre os moinhos, voando lado a lado como um par de olhos fitando San Francisco, a cidade que eu agora chamava de lar. E, de repente, a voz de Hassan sussurrou nos meus ouvidos: “Por você, faria isso mil vezes!” Hassan, o menino de lábio leporino que corria atrás das pipas como ninguém.
Sentei em um banco do parque, perto de um salgueiro. Pensei em uma coisa que Rahim Khan disse um pouco antes de desligar, quase como algo que lhe houvesse ocorrido no último minuto. “Há um jeito de ser bom de novo.” Ergui os olhos para as pipas gêmeas. Pensei em Hassan. Pensei em baba. Em Ali. Em Cabul. Pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo.
E fez de mim o que sou hoje.

Uma história pungente, sobre amizade, lealdade, costumes, tradições, religião. Uma leitura que flui, solta, ávida, envolvente...

"(...) Quanto ao órfão, meu avô decidiu adotá-lo e levá-lo para sua própria casa. Mandou que os outros empregados tomassem conta dele, mas que fossem gentis. Esse menino era Ali.
Baba e Ali cresceram juntos, como companheiros de brincadeiras – ao menos até que a pólio o deixasse aleijado –, exatamente como Hassan e eu cresceríamos juntos uma geração mais tarde. Baba sempre falava das travessuras que ambos aprontavam, e Ali balançava a cabeça dizendo "Mas, agha sahib, diga a eles quem arquitetava as travessuras e quem era o simples executor". Meu pai ria e passava o braço nos ombros de Ali.
Em nenhuma dessas histórias, porém, baba se referia a Ali como amigo.
O curioso é que também nunca pensei em Hassan e eu como amigos. Pelo menos não no sentido habitual. Pouco importa se um ensinou ao outro a andar de bicicleta sem as mãos, ou a construir uma câmera caseira, feita com uma caixa de papelão, e que funcionava bastante bem. Pouco importa se passamos invernos inteiros empinando pipas e correndo para apanhar as que caíam. Pouco importa se, para mim, a cara do Afeganistão é a cara de um menino de porte esguio, cabeça raspada e orelhas meio dobradas; um menino com uma cara de boneca chinesa perpetuamente iluminada pelo sorriso leporino.
Nada disso importa. Porque não é fácil superar a história. Tampouco a religião. Afinal de contas, eu era pashtun, e ele, hazara; eu era sunita, e ele, xiita, e nada conseguiria modificar isso. Nada.
Mas éramos duas crianças que tinham aprendido a engatinhar juntas, e não havia história, etnia, sociedade ou religião que pudesse alterar isso. Passei a maior parte de meus primeiros doze anos de vida brincando com Hassan. Às vezes, toda a minha infância parece ter sido um longo dia preguiçoso de verão em companhia de Hassan, um correndo atrás do outro por entre as árvores do quintal da casa de meu pai, brincando de esconde-esconde, de polícia-e-ladrão, de índio e caubói, de torturar insetos. Quanto a esta última brincadeira, o ponto alto foi, sem dúvida alguma, aquela vez que arrancamos o ferrão de uma abelha e amarramos um barbante no pobre inseto para puxá-lo de volta sempre que conseguisse levantar vôo. (...)"

[trecho extraído das págs. 32-33, do livro “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini]

Links:
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,,EPT1049655-1661,00.html
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1049053-1655,00.html
http://www.americanas.com.br/cgi-bin/WebObjects/AcomHome.woa/wa/materia?mat=4429
http://www.novafronteira.com.br/produto.asp?CodigoProduto=1767
http://www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=514
http://www.bravonline.com.br/noticias.php?id=1661
http://revistaentrelivros.uol.com.br/edicoes/6/artigo11009-1.asp?o=r
http://www.terra.com.br/istoe/1880/artes/1880_barril_de_polvora.htm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u53916.shtml
http://br.cinema.yahoo.com/noticias/15505


Comments:
Clélia, cada radução...é um livro, um autor. Seu exemplo deixou isso ainda mais nítido!
E eu preciiiiso ler O caçador de pipas. Preciso.
 
"tradução".
 
Vivien,

'Tava na sua casa, papeando...

Leia, sim, vai gostar, estou certa!
 
Oi Clé!
Acho que estou um pouco como a Verdadeira Tarrtaruga, ou a Tartaruga de Verdade, oras, a real Turtle! Atrasada com leituras e sons...
Beijo,
Bia Alessi
 
Oi, Bia

'Tava postando no blog, qdo vi seu comentário. Acho que a gente sempre estará atrasada com leituras, cinema/DVD, sons...

Como diz o Gil:
É tanta coisa pra gente saber
O que cantar, como andar, onde ir
O que dizer, o que calar, a quem querer...


bjão,
Clé
 
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